Mundo mesquinho

somem de mim os assuntos mergulhados em cloro e cândida, um id de brancura límpida, sem vida, sem bactéria, sem gosto, sem tom, sensato

somem de mim os afrescos pintados à mão livre nas paredes que circunscrevem os domínios hostis do superego da imaginação

somem de mim os resquícios moribundos de uma criança que outrora brincou nos jardins seguros do ego

mudo para ser um ser humano melhor, mudando quem eu sou, como eu ajo, como eu falo, como eu olho, como eu sento e como eu como

mudo conforme as corporações conduzem a valsa do crescimento e do faturamento bruto a fim de me adaptar ao trabalho — que é de onde vem o dinheiro que me sustenta

mudo, me mutilo e me deformo, me faço caber dentro das expectativas inevitáveis do homem empregador

ando curvado pela fadiga do peso da responsabilidade de guiar a carreira profissional de quem vê nela toda a sua importância na vida, mesmo eu não vendo valor algum

ando maltrapilho, vestido apenas com as tramas shakespearianas cozidas pelos que me cercam — e a mim são caros — em rocas populares de uso caseiro

ando preocupado com a chave que não abre, a luz que não liga, o esgoto que não escorre, a água que não cessa, o cheiro que levanta do ralo, a pia suja e a banheira imunda dos banhos do dia a dia

o mundo tira de mim tudo de lírico e de pavoroso e errado e de essência

o mundo nega a mim a possibilidade inevitável do erro

o mundo me distrai, sobrando pouco tempo de ócio necessário para mergulhar na metafísica duvidável do ser

somem de mim as fagulhas esparsas e fracas de uma possível poesia e me sobra apenas o lamento em versos extensos e longos e prolixos e demorados de quem perde as esperanças sem realmente perdê-las

mudo apenas para o mundo, já que é o mundo que me quer mudado, mas não mudo para mim

ando disfarçando o terrível monstro selvagem, escroto e miserável que se esconde atrás do ator fracassado que vagueia as colcheias do palco da sociedade

o que for necessário, eu mudarei.

do mundo pra fora, sou como o camaleão ameaçado em campo aberto cujos raios de sol de um dia desprovido de nuvens atravessam e queimam no calor seco dos desertos arenosos.

do mundo para dentro, serei sempre um explorador curioso, de renome, que avança nas cavernas escuras do inconsciente onde moram morcegos e há cheiro de fezes, nas montanhas geladas e escorregadias dos alpes do corpo físico e nas matas fluviais verdes e esparsas do raciocínio lógico, anotando minhas descobertas miseráveis em folhas amareladas e sujas de meu caderno de viagem.