As palavras são como holofotes na poesia

As palavras na prosa, são como luz pisca-pisca de um pinheiro de natal. Na poesia, cada palavra é um holofote.

Digo isso porque as luzes pisca-pisca são uma cadeira de palavras. Uma luz seguida da outra que, juntas, em sentenças vai demonstrando sua beleza. A medida que vai se descrevendo, as coisas, os lugares, as pessoas vão tomando forma na cabeça do leitor.

Na poesia, as luzes de uma única palavra ou o conjunto de poucas palavras pode ser o necessário para despertar o imaginário e criar coisas, lugares, pessoas e, principalmente, evocar sentimentos e sensações.

No vídeo anterior, nós vimos como o Pablo Neruda conseguia projetar imagens que nos fazem transformar o corriqueiro e o óbvio em experiências sinestésicas e intensas. Com ele, não viajamos propriamente pela América Latina, mas enxergamos.

Eu queria trazer aqui para vocês, um texto do Paulo Leminski que nos transporta para um lugar. As palavras importam, porque elas não descrevem demais e nem de menos. Para tentar ajudar, feche os olhos e perceba palavra por palavra:

Aqui nesta pedra
Alguém parou para o olhar o mar
O mar não parou para ser olhado
Foi mar para tudo que é lado

Paulo Leminski

Veja que não é dito quem, não é dito onde, não é dito o como. Apenas sabemos que havia alguém parado, uma pedra e o mar. Poderíamos escolher várias imagens e ter várias interpretações. Há espaço no poema para o leitor.

Em outra parte do poema, quando canta esta folha branca / me proscreve o sonho, / me incita ao verso / nítido e preciso. / Eu me refúgio / nesta praia pura / onde nada existe / em que a noite pouse., acredito que cante muito parecido a Drummond, ou seja, se refugiar nesta praia pura seria adentrar ao mundo das palavras, sentar se a frente do jardim.

Homem em cima de uma pedra de frente ao mar vendo o pôr-do-sol Alguém admirando o pôr-do-sol

Poderia ser alguém simplesmente admirando o pôr do sol.

Poderia ser a descrição de Leminski para o quadro de Caspar David Friedrich , que se chama Caminhante sobre o mar de névoa.

Quadro Caminhante sobre mar de névoa de Caspar David Friedrich Quadro Caminhante sobre mar de névoa de Caspar David Friedrich

Também mais tarde, retoma dizendo vivo com certas palavras, abelhas domésticas do mesmo modo que Drummond conta chega mais perto e contempla as palavras.

Quando continua neste papel logo fenecem as roxas, mornas flores morais;, me parece que os versos vão saindo, tal qual a flor que vai desabrochando, tal qual o suco que vai sendo extraído da fruta.

Estes são conselhos que levo comigo. Escrever poesia é entrar em outro estado. É entrar em estado de transe. É excluir-se a uma praia, é adentrar o mundo das palavras. Cada poeta vai criar seu mundo.

Nessa jornada em busca de uma poesia mais madura, uma poesia mais bem escrita, saímos do lugar, mas ainda estamos em alto mar.

Ou imagine o seguinte cenário: uma criancinha que da pedra, quando vai olhar para o mar lá embaixo, leva um banho com os respingos de uma onda inesperadamente mais forte que as anteriores.

Esse espaço em que o leitor foi permitido interagir é fundamental para trazer a subjetividade da poesia a quem lê. As palavras, como holofotes, mostram apenas o necessário. O resto, ainda escuro e omitido, é que é chama a poesia.