Nietzsche e o juízo sobre a arte

A ansiedade de publicar o poema pela ótica do filósofo.

Nos últimos dois vídeos, falei sobre contemplar para escrever e ansiedade de publicar um poema. Eu queria agora falar um pouco mais sobre a ansiedade de publicar.

Eu comecei a me perguntar coisas do tipo: será que todo desenho de um artista é uma obra boa? Será que todo pintor gostaria de expor todas as suas pinturas?

Se toda poesia que eu criasse eu precisasse publicar, quando que eu a estaria treinando?

Eu estava lendo Nietzsche , Humano Demasiado Humano , e ele tem um aforismo sensacional que podemos ligar com a genialidade, inspiração e a ansiedade em publicar:

155 — Fé na inspiração

Os artistas têm interesse em que se acredite nas intuições repentinas, nas chamadas inspirações; como se a ideia da obra de arte, da poesia, o pensamento fundamental de uma filosofia caíssem do céu feitos raios da graça. Na verdade, a imaginação do bom artista ou pensador produz continuamente coisas boas, medíocres e más, mas seu juízo, extremamente aguçado e exercitado, rejeita, seleciona, combina; como agora se deduz dos livros de notas de Beethoven que ele compilou pouco a pouco suas melodias mais soberbas e de algum modo as selecionou a partir de múltiplos esboços.

Aquele que discerne menos rigorosamente e deixa de bom grado a reprodução ao cuidado da memória poderá, em certas circunstâncias, tornar-se um improvisador, mas a improvisação artística fica num nível muito abaixo em comparação das ideias de arte escolhidas seriamente e com dificuldade. Todos os grandes homens são grandes trabalhadores, incansáveis não só em inventar, mas também em reprovar, examinar, modificar, ordenar.

Friedrich Nietzsche

Essa tarefa é muito difícil, mas temos que encará-la de frente. No meu caso, escrevo muitas poesias impublicáveis: poesias ruins e medíocres, mas principalmente muita poesia medíocre.

O trabalho do poeta é lapidar os poemas para tirar o máximo de cada um. Não basta escrever. É necessário selecionar os melhores — e apenas os melhores — para expor ao mundo. Os poemas medíocres e ruins podem ser publicados no futuro, após algum ou muito trabalho, quando se julgar a obra boa. Está aí onde a ansiedade da publicação atrapalha.

Indo de encontro ao que diz Nietzsche, portanto, não basta aprender a escrever poesia. O poeta também precisa aprender a ter juízo. Este juízo é que vai caracterizar o poeta.

A medida que vai se amadurecendo e tendo contado com outras obras, o juízo vai ficando mais afinado, mais exigente. Por outro lado, há mais ferramentas para ajudar na lapidação.

Evoluir assim é estar em alto mar a procura de terra firme, tal qual estamos aqui.