O ritmo no poema

E como a rima influencia

Segundo o dicionário Michaelis, ritmo é a “sucessão de tempos fortes e fracos que ocorrem, com intervalos regulares em uma frase musical, um verso etc.”.

Bom, se pensarmos no ritmo de forma geral, podemos enxergá-lo em tudo que nos cerca. Nosso estado está ligado ao ritmo cardíaco, quanto mais rápido corremos, mais rápido o coração precisa bater; está ligado à atividade da escrita, pois cada poeta produz a determinado ritmo, que pode aumentar ou diminuir devido a vários fatores, externos e internos. O ritmo fica muito evidente na música, dado que o ritmo do jazz é muito mais lento que o ritmo do heavy metal. O ritmo do filme Roma é muito diferente do de Vingadores.

O que define, então, o ritmo?

O coração segue o ritmo da respiração; o poeta e escritor, da sua capacidade produtiva; o jazz e o heavy metal, da percussão; e o filme, do arranjo de tomadas escolhidas na sua montagem.

E na literatura?

Segundo o dicionário Michaelis, ritmo, na literatura se refere ao “efeito sonoro e estético causado pela repetição de unidades melódicas dispostas em continuidade”.

Quando se refere a unidades melódicas aqui, com certeza se refere às sílabas. Cada sílaba é uma unidade melódica. As sílabas tônicas marcam os tempos fortes e as demais, os tempos fracos.

O que faltou nessa definição, na minha opinião, é salientar que o silêncio também é parte intrínseca do ritmo. Como dizia o músico Claude Debussy , “música é o espaço entre as notas”, ou seja, a pausa também compõe o ritmo. No caso da prosa, todas as pontuações e também a quebra em parágrafo, capítulos e tomos.

O dicionário também fala da “repetição de unidades melódicas dispostas em continuidade”. Como já conversamos, em outro vídeo, sobre o aspecto da LINEARIDADE da linguagem, ou seja, de uma palavra ser seguida da outra, fica claro que essa definição é mais relevante para a prosa do que para a poesia. Na poesia, o verso quebra essa linearidade e também insere silêncio. Então, além da pontuação e da quebra em estrofes, que seria equivalente à quebra em parágrafos da prosa, temos também a quebra em versos como fator de silêncio. Os concretistas utilizam o branco da página também como silêncio, tornando a geografia da página parte do poema.

Agora que já entendemos o que é ritmo e como ele se manifesta, fica a dúvida: o quão importante é o ritmo para o poema?

Para chegar a essa resposta, primeiro vamos voltar à linguagem. Para os linguistas é claro: o léxico (conjunto das palavras existentes) e gramática (regras do uso) está sempre em mudança. Novas palavras surgem, novas estruturas passam a ser usadas, assim como palavras antigas e gramáticas antigas caem em desuso.

Esse novo léxico e essa nova gramática, trazem novo ritmo e novo fôlego. As poesias parnasianas estão cheias de palavras que não fazemos ideia do que significa, ao passo que os poemas contemporâneos raramente usam palavras não utilizadas no nosso cotidiano.

Quando a gente escreve poesia, não ficamos pensando em linguagem, em gramática, da onde vem cada coisa. Deixamos a coisa fluir. Mas a gente não fica se perguntando se esse fluir da linguagem é do poeta ou é algum reflexo da mente. As palavras vão chegando e se acomodando. Segundo Octávio Paz , “algumas palavras se atraem, outras se repelem e todas se correspondem”. E mais tarde afirma “[…] essas reuniãos e separações não são filhas do puro acaso: uma ordem rege as afinidades e as repulsões. No fundo de todo fenômeno verbal há um ritmo.”

O poeta cria seguindo seu próprio ritmo e dá ritmo ao poema, que acaba se diferenciando, como se fosse um feitiço ou um conjuro, libertando a linguagem e gerando o efeito poético.

Um exemplo bom é o Canto IV do I-Juca-Pirama , de Gonçalves Dias . Olha a marcação e o efeito do trecho:

IV

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi.

Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.

[...]

Gonçalves Dias

O ritmo também está presente em alguns dizeres populares, como “o pão que o diabo amassou”, “nem que a vaca tussa” ou “antes só do que mal acompanhado”. Essas frases possuem ritmo marcante e, se traduzidas literalmente para outros idiomas, perdem o encanto, pois perdem também o ritmo.

A rima é parte importante na marcação do ritmo do poema descrito acima. Entretanto, ele não é essencial. É possível encontrar harmonia utilizando versos livres, como, por exemplo, neste trecho do poema de Wisława Szymborska . Veja como as palavras se desenrolam, como se pedissem a palavra seguinte. Os versos dão uma noção de expansão, de movimento.

sou quem sou.

inconcebível acaso
como todos os acasos.

fossem outros
os meus antepassados
e de outro ninho
eu voaria
ou de sob outro tronco
coberta de escamas eu rastejaria.

no guarda-roupa da natureza
há trajes de sobra.
o traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
cada um cai como uma luva
e é usado sem reclamar
até se gastar.

[...]

Wisława Szymborska

A conclusão que chegamos, então, é que o ritmo dos poemas é essencial para evocar a poética. A cadência de tempos fortes e fracos, geralmente surgidos de maneira intuitiva, uma palavra chamando a outra, faz do poema algo diferente das outras formas literárias. Algo que emana, suscita ou contém poesia.