Sobre a ansiedade de publicar poemas

Tem diminuído, mas ainda sinto muita ansiedade em publicar a poesia.

Eu costumava escrever e achar que o poema estava pronto. Porque ele realmente parecia muito bom logo depois de terminá-lo.

Mas dado alguns dias ou meses, quando eu relia, via que poderia melhorá-lo. Percebia erros, possibilidade de rimas, quebras no ritmo, etc. Comecei a repassar os poemas mais antigos nos dias seguintes. Foi aí que percebi que em momento de transe tudo parece mágico e lindo e poético.

Mas essa ansiedade em publicar acaba prejudicando o poeta e os leitores. O poeta, porque se perde a oportunidade de se escrever uma poesia melhor, a oportunidade de conviver um pouco com sua própria obra; ao leitor, porque diminui as chances de criar empatia, porque o trabalho desafinado pode afastá-lo de sentimentos que compartilha com o poeta.

Quando li o poema de Drummond , Procura da Poesia identifiquei o seguinte verso:

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
isso ainda não é poesia! Convive com tua poesia, ele fala.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Carlos Drummond de Andrade

Parece que faz sentido e que não foi só eu quem percebeu isso. O primeiro descarrego, ainda não é poesia.

O João Cabral , através da Psicologia da Composição, fala o seguinte:</p>

O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro;

João Cabral de Melo Neto

E quer mesmo, não é? O estado de transe nos faz escrever muito, quer explodir com seus cavalos. Um turbilhão de ideias e formas. É preciso ordenar o caos.

Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;

...

(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)

João Cabral de Melo Neto

Jovem manhã é uma alusão ao futuro, ao frescor na cabeça. Tentar enxergar o mais próximo do leitor, sem o contexto do poeta, revela as flores da véspera, ou seja, ao ler a poesia fora do estado de transe, nós nos surpreendemos com o que escrevemos. As flores escritas na véspera se revelam.

Para sintetizar e concluir o pensamento, gostaria de citar Mario de Andrade .

Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi.

Mário de Andrade