O que é Imagem Poética?

Com exemplos

Qual o papel das imagens nos poemas? Por que elas são importantes?

Neste vídeo, discuto um pouco mais sobre esse assunto, baseado no livro O Arco e a Lira , do Octavio Paz .

No vídeo O poder das imagens, eu falo sobre as imagens evocadas por Pablo Neruda nos poemas do Canto Geral .

De alguma maneira, elas provocam sensações sinestésicas, encantamento. Porém, naquela ocasião, falei muito sobre imagens do ponto de vista de quem mostra cenários e ideias diferentes.

E aí vem a pergunta, como funciona essa coisa de imagem? Qual sua importância? Como que ela se manifesta?

Bom, primeiro, é necessário definir o que é imagem. Em alguns casos, imagem é uma representação. Por exemplo, uma estátua de Nossa Senhora não é a própria Nossa Senhora, mas uma imagem que a representa.

O mesmo vale para pinturas, fotografias, etc. São imagens, não a coisa em si. Nesse sentido, a imagem é sempre um produto psicológico, algo que está no nosso imaginário.

Mas ela pode ter outros sentidos, como por exemplo, dentro da linguagem, é

toda forma verbal, frase ou conjunto de frases que o poeta diz e que juntas compõem um poema. Essas expressões foram classificadas pela retórica e se chamam comparações, símiles, metáforas, jogos de palavras, paranomásias, símbolos, alegorias, mitos, fábulas, etc. Quaisquer que sejam as diferenças que as separam, todas elas têm em comum a característica de preservar a pluralidade de significados da palavra sem romper a unidade sintática da frase ou do conjunto de frases.

Octavio Paz

Ou seja, o uso da imagem permite que o que está sendo dito, não seja literalmente o dito, mas que seja uma vasta possibilidade de coisas sendo ditas.

No vídeo em que discuto a relação entre linguagens e poesia falamos sobre isso. A prosa aprisiona, mas a poesia liberta o sentido primeiro das palavras.

O exemplo que Octavio Paz usa é o de uma criança que se admira ao saber que 1kg de pedra pesa a mesma coisa que 1kg de pena.

Quando eu era criança fizeram uma piada parecida: o que pesa mais 1kg de chumbo ou 1kg de algodão? É a mesma coisa.

Acontece que pra criança, pedra é pesada, rígida, grosseira. A pena é leve, maleável, elegante. Por isso essa pergunta a assusta, quebra sua visão.

Essa associação, de que a pedra é pesada e a pena é leve, é uma das inúmeras formas que se manifesta a pluralidade das palavras (o dito sentido primeiro).

Segundo Octavio Paz,

[...] em algumas imagens - precisamente as mais elevadas - as pedras e as penas continuam sendo o que são; isto é isto e aquilo é aquilo; e, ao mesmo tempo, isto é aquilo: as pedras são penas sem deixar de ser pedras

Confuso? Vamos ver um exemplo prático!

Na primavera você dorme e não sabe quando amanhecerá,
Por toda a parte se ouve o canto dos passarinhos,
Mas na noite o som do vento aos da chuva se mistura,
E você se pergunta quantas flores caíram.

MENG HAO-JAN, 689-740

Este poema foi retirado da revista Escamandro e é uma tradução para um poema escrito em mandarim. Ela foi traduzida à partir de uma versão em inglês que traduzia a original.

Se interpretarmos literamente, de forma apriosionada como na prosa, o poema parece não fazer sentido. Por que eu durmo na primavera? Por que não sei quando amanhecerá? Etc. Mas se libertarmos o sentido múltiplo das palavras, podemos pensar que:

Nesse sentido, o poema poderia significar que quando estamos felizes (primavera) não nos preocupamos com quando a felicidade irá acabar (quando amanhecerá). Enquanto vivemos a felicidades, vemos todos os problemas de forma otimista (Por toda a parte se ouve o canto dos passarinhos), diferente de quando estamos tristes (na noite), que então tudo é melancólico e ruim (o som do vento aos da chuva se mistura). Diferentemente de quando estamos felizes, quando estamos tristes só pensamos em o quão éramos felizes (quantas flores caíram).

Um ponto importe das imagens é que elas engrandecem muito quando possuem coerência interna. No caso, veja a lista de palavras relacionadas:

Pra finalizar, mais um trecho do Octavio Paz, que resume o que é imagem:

A imagem é uma frase em que a pluralidade dos significados não desaparece. A imagem permite e exalta todos os sentidos das palavras, sem excluir os significados primários e secundários

Ou seja, pedras são pesadas, penas são leves; primaveras são felizes e noites melancólicas. Mas pedras podem ser penas, pesado pode ser leve; assim como a primavera pode se tornar noite e felicidade pode se tornar tristeza.