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#genocídio

Poema #genocídio, presente no livro “ao antropoceno brevíssimo aceno ou um pot-pourri pro povo rir”

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Privilégios

a flecha afronta o ar peita destemida a pressão rasga em rota a resistência corta o corpo celestial ao agudo da ponta, todo mérito ao resto, torpor e descrédito avante voa cética à influência da força cinética

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Shamata

Ao leste, a textura púmblea e tóxica das nuvens carregadas que pairam no além-mar não refletem a monotonia petrólea do movimento do oceano e distorcem a realidade plana e clara do peito aberto do céu esgueirado A oeste, o amarelo árido da areia desértica das praias inóspitas marcam a pressão das pegadas de uma jornada caóticas e inesgotável sem destino Ao centro, o farol violáceo da consciência ergue-se vertiginosamente em meio ao mar sob a lâmpada áurea da consciência da consciência

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Coração em ruínas

percebo-me encolhido no centro geodésico da abóboda côncava de um salão lucilante de ilusões, erguida diante das galerias de opulência óbvia dos átrios atávicos à escuridão do meu peito resisto, mas assisto incrédulo com paciência frágil ao espetáculo mágico do trincar gradativo das colunas de mármore do que senti, cujas rachaduras evidentes, ora mesclam-se à inerência da rocha aceito ao esvanecer suave das escrituras proféticas de sonhos frustados pintadas à mão nas paredes sólidas através de processos análogos e cientificamente inexplicáveis das chuvas ácidas de choros doces de decepção e de raios solares sórdidos de esperança

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Cosmologia da Linguagem

Sinto os bilhões e bilhões de anos do universo na aspereza decrépita e irregular das cascas das árvores e no fulgor branco sobre o verde das primeiras folhas Vejo a evolução caótica e imprevisível do amanhã nos sons translúcidos oriundos do encontro das águas que correm por entre as montanhas gélidas de sabe-se-lá-onde Escuto às vibrações do crepitar da fogueira que celebra o amarelo-laranja do contínuo nascer e pôr do sol do ínfimo tempo da vida de cada coisa e do infinito tempo de vida de todas as coisas que morrem e revivem e estão em eterna mutação

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Princípio de Realidade

somem de mim os assuntos mergulhados em cloro e cândida, um id de brancura límpida, sem vida, sem bactéria, sem gosto, sem tom, sensato somem de mim os afrescos pintados à mão livre nas paredes que circunscrevem os domínios hostis do superego da imaginação somem de mim os resquícios moribundos de uma criança que outrora brincou nos jardins seguros do ego mudo para ser um ser humano melhor, mudando quem eu sou, como eu ajo, como eu falo, como eu olho, como eu sento e como eu como mudo conforme as corporações conduzem a valsa do crescimento e do faturamento bruto a fim de me adaptar ao trabalho — que é de onde vem o dinheiro que me sustenta mudo, me mutilo e me deformo, me faço caber dentro das expectativas inevitáveis do homem empregador

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