Poesias

Princípio de Realidade

somem de mim
os assuntos mergulhados em cloro e
cândida, um id de brancura límpida,
sem vida, sem bactéria, sem gosto,
sem tom, sensato

somem de mim
os afrescos pintados à mão livre
nas paredes que circunscrevem os domínios hostis
do superego da imaginação

somem de mim
os resquícios moribundos de uma criança
que outrora brincou nos jardins seguros do ego

mudo para ser um ser humano melhor,
mudando quem eu sou, como eu ajo, como eu falo,
como eu olho, como eu sento e como eu como
mudo conforme as corporações conduzem a valsa
do crescimento e do faturamento bruto
a fim de me adaptar ao trabalho  —  que é de onde vem o dinheiro
que me sustenta
mudo, me mutilo e me deformo,
me faço caber dentro das expectativas inevitáveis do homem empregador

ando curvado pela fadiga do peso da responsabilidade
de guiar a carreira profissional de quem vê nela
toda a sua importância na vida,
mesmo eu não vendo valor algum

ando maltrapilho,
vestido apenas com as tramas shakespearianas
cozidas pelos que me cercam  —  e a mim são caros  —
em rocas populares de uso caseiro

ando preocupado com a chave que não abre,
a luz que não liga, o esgoto que não escorre, a água que não cessa,
o cheiro que levanta do ralo, a pia suja
e a banheira imunda dos banhos do dia a dia

o mundo tira de mim tudo de lírico e de pavoroso
e de errado e de essência

o mundo nega a mim a possibilidade inevitável do erro

o mundo me distrai, sobrando pouco tempo de ócio necessário para mergulhar na metafísica duvidável do ser

somem de mim
as fagulhas esparsas e fracas de uma possível poesia
e me sobra apenas o lamento em versos extensos e longos e prolixos
e demorados de quem perde as esperanças sem realmente perdê-las

mudo apenas para o mundo,
já que é o mundo que me quer mudado,
mas não mudo para mim

ando disfarçando o terrível monstro selvagem, escroto e miserável
que se esconde atrás do ator fracassado
que vagueia as colcheias do palco da sociedade

o que for necessário, eu mudarei

do mundo pra fora,
sou como o camaleão ameaçado em campo aberto
cujos raios de sol de um dia desprovido de nuvens
atravessam e queimam no calor seco dos desertos arenosos

do mundo para dentro,
serei sempre um explorador curioso, de renome,
que avança nas cavernas escuras do inconsciente
onde moram morcegos e há cheiro de fezes,
nas montanhas geladas e escorregadias dos alpes do corpo físico
e nas matas fluviais verdes e esparsas do raciocínio lógico,
anotando minhas descobertas miseráveis em folhas amareladas
e sujas
de meu caderno de viagem
Gustavo Dutra

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Gustavo Dutra
Tags: poesia

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