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O genocídio começou bem antes e deve continuar

Desde que ultrapassamos a marca de 300 mil mortes em decorrência da COVID-19, o número de manifestações nas redes sociais chamando o presidente de genocida só aumenta. Eu inclusive estou postando este artigo para manifestar minha indignação e também lembrar que essa prática já acontece há um bom tempo aqui no Brasil.

Dá para dizer que não ocorre um genocídio, mas alguns genocídios. Além da alta taxa de morte pelo vírus — atualmente beirando os 4 mil por dia —, há um assassinato sistemático das populações indígenas e negra e/ou favelada.

As mortes acontecem embasada pela política — a política da morte, ou necropolítica, nos termos do filósofo Achille Mbembe — incorporada ao Estado. Isto não é exclusivo de Bolsonaro e foi praticada em governos passados, que, ao longo dos anos, sempre se mostraram omissos ou ineptos.

Porém, antes omissos do que energeticamente contra. O governo atual se esforça, se dedica a matar a população mais vulnerável. A alta classe média, que trabalha com conhecimento e não com trabalho físico, e a elite estão seguras. Trabalham de suas casas. Trabalhadores, porém, estão sendo incentivados a saírem na rua sem máscaras, expondo-se ao risco de infecção e contribuindo para disseminar o vírus.

Não há muita opção sem que o governo proveja ajuda financeira. Esse auxílio, que deve ser de R$150, é mísero. Segue sendo parte de um projeto maior, de uma estratégia que objetifica e diminui a classe mais populosa do país, sem se importar com suas vidas.

No meu último livro, onde luta de classe é também um dos temas, publiquei um poema assim:

#trabalhador

epidemia controlada na elite,
cujo pensamento sempre foi canalha:
vira, trabalhador, carvão de fornalha
e a vida equivale ao lucro que emite

Essa forma de pensar não é novidade. A novidade, me parece, é escancará-la, executá-la sem o menor pudor, e — mesmo diante dos escândalos nos jornais — seguir ileso. Quando as inúmeras mortes que poderiam ser evitadas chegam às pessoas próximas a nós, que não nos enxergamos como parte do povo, reagimos classificando o ato como genocídio.

O genocídio começou bem antes

O começo dá-se em 1500. Mas isso não quer dizer que os únicos a massacrar populações indígenas foram os europeus. A população indígena segue sendo exterminada até hoje, de diferentes formas. Nessa entrevista, o professor Flávio de Leão de Bastos Pereira explica não só como se dá o genocídio, mas também o que o caracteriza.

Durante a ditadura de 64, exaltada pelo governo atual, o objetivo era “civilizar” os indígenas. Um pensamento genocida que visa exterminar uma cultura, e que enxerga apenas seu próprio modo de viver como “civilizado”, onde o “progresso acontece”.

Para saber como se desdobrou e como agia o governo, recomendo assistir à entrevista, e, quem sabe, ler o livro do entrevistado: Genocídio Indígena no Brasil — O Desenvolvimentismo entre 1964 e 1985 . Ainda não li devido ao preço de capa — quase R$100 —, mas está na minha lista.

Hoje em dia, vemos o genocídio acontecendo de várias formas, como a invasão da mineração em terras indígenasa invasão e desocupação ilegal em Jaraguá e ações da polícia nas favelas.

O ataque à floresta amazônica, o desmatamento desenfreado para especulação imobiliária, plantação de soja e criação de gado também são parte de um genocídio, uma vez que invadem terras indígenas e quilombos — afinal, —, e também aumentam as chances de um cataclisma climático que pode levar à extinção da nossa espécie. O ataque à floresta amazônica, o desmatamento desenfreado para especulação imobiliária, plantação de soja e criação de gado também são parte de um genocídio, uma vez que invadem terras indígenas e quilombos — afinal, etnocídio é genocídio —, e também aumentam as chances de um cataclismo climático que pode levar à extinção da nossa espécie.

Portanto, mesmo superando o vírus, as mortes irão continuar. Outros genocídios seguirão em curso, e precisarão do nosso apoio. Não podemos nos esquecer disso, não podemos voltar ao “normal”.

Gustavo Dutra

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