Se você nasceu na classe média, tenho certeza que, em algum momento, ouviu a anedota do martelo. Ou metáfora do martelo, como preferir. São diversas as versões[1][2][3], sempre adaptadas para exemplificar algum conceito adicional.
Em resumo, é a história de um capitão cuja embarcação não está funcionando corretamente. Como um barco parado no porto é sinal de prejuízo financeiro, o capitão chama um técnico para consertá-lo. A visita custaria U$1.000. Depois de um dia de trabalho o técnico desiste, não sabendo dizer o que causava o problema.
O capitão, então, decide chamar um outro profissional, agora um engenheiro, mais especializado e, claro, que cobraria mais caro. O engenheiro estudou por três dias o maquinário, mas também não soube como resolvê-lo. Mesmo assim, cobra U$10.000 por sua visita.
Já se passaram quatro dias e o barco continuava atracado no porto. O prejuízo não parava de aumentar. Era necessário uma atitude mais enérgica: chamaria o profissional que o construiu. Esse, quando chegou, após algumas horas de avaliação, com um martelo pequeno, deu três batidas em uma válvula discreta, quase escondida. Após alguns testes, deram o barco como consertado.
O construtor do navio, então, fala o seu preço: U$1.000.000. O capitão fica espantado, achando o montante um absurdo. Como pode um conserto de três marteladinhas custar 1 milhão de dólares? O construtor responde: “pelas marteladas eu cobrei 1 dólar; os U$999,999 restantes foram por saber onde dar as marteladas”.
Eu escutei essa história pelo menos umas três vezes na vida, em situações diferentes, mas sempre com um mesmo intuito: provar que o conhecimento vale mais que o trabalho braçal.
Tenho me interessado pelas contradições e os problemas da classe média, e percebo que a propagação desse “mito” é agente estruturante da divisão de classes.
No livro “A classe média no espelho”, o autor Jessé Souza — o mesmo autor de “A elite do atraso” — defende que a classe média brasileira surge a partir dos imigrantes e filhos de donos de terra, pois estes se diferenciaram através do conhecimento.
Como o Brasil não criou nenhuma medida de indenização, a abolição da escravatura apenas criou uma massa de pessoas desassistidas e sem conhecimento utilitarista, do qual o Capital se aproveita. Nesse cenário, poderíamos dizer que o berço da desigualdade brasileira é um passado mal resolvido com a escravidão.
E se o que difere a classe média da trabalhadora é o acesso à educação naquelas disciplinas cujo capital prevalece, esse comportamento se persiste sistematicamente através da sucateamento das escolas e universidades públicas.
O resultado disso é uma classe média ocupando os cargos de gestão e estratégia, enquanto a classe trabalhadora fica responsável pelo trabalho braçal e à exposição aos riscos de vida, como no caso de mineiros, garimpeiros, empregadas domésticas — durante a pandemia — e agricultores — pelo menos os que lidam com agrotóxico ou tabaco —, por exemplo.
A partir dessas explicações, alguns pensamentos passaram a me incomodar:
Todos os elementos formadores da classe média estão na anedota:
Acho importante esse movimento. Precisamos entender cada vez mais os mecanismos estruturantes a fim de combatê-los. Essa anedota já não replico mais. Ao menos, não no sentido de perpetuar o louvor ao trabalho sobre o conhecimento.
Ainda quero explorar alguns outros pontos do livro, mas deixarei para outro post.
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