O algoritmo do YouTube, que me recomenda muita coisa desinteressante, vez ou outra acerta. Por exemplo quando, em meados de Setembro de 2019, me sugeriu o vídeo Poetas Analfabetos do Sertão do Pajeú, que mostra um pouco da história e da figura de Leonardo Bastião, um poeta analfabeto que canta seus versos nessa região do interior pernambucano.
Gostei tanto do poeta, que selecionei o vídeo como destaque na edição do Curto Poema daquele mês. Aliás, para se inscrever na Newsletter e receber mensalmente vídeos, entrevistas, poemas e sugestões sobre poesia, basta deixar o email na página do Curto Poema.
Em 21 de fevereiro de 2020, estreiou, no YouTube, o documentário completo. O curta de 22min, além de alguns poemas declamado por Leonardo, apresenta um panorama da origem da forma que utiliza e uma breve crítica sobre sua obra. Assista!
Apesar de analfabeto, o poeta de Itapetim, faz seus versos metrificados. Enquanto nós, letrados, sofremos para encaixar as palavras a fim de montar uma imagem poética que tenha conteúdo, ele parece não fazer esforço algum. Lembrei diversas vezes, ao assistir, de Octávio Paz. Antes de escrever este texto, fui consultar O Arco e a Lira, pois tinha certeza que havia algo relacionado por lá. Eis o trecho que me deparo:
Mas as crianças não têm consciência das palavras; tem consciência, muito viva, das frases: elas falam, pensam e escrevem em blocos significativos e têm dificuldade para entender que uma frase é feita de palavras. Todos aqueles que não sabem escrever bem apresentam a mesma tendência. […] Ao falar, ao contrário, os analfabetos fazem as pausas exatamente onde precisam fazê-las: pensam em frases. — Octavio Paz
Pensar em frases e não em palavras: uma possível lição desse poeta para minha poesia. Será esse o segredo para fazer versos que me levam a um lugar parecidíssimo ao que a poesia de Leminski me envia? Pergunto pois quando leio, por exemplo, este poema de Leminski:
aqui nesta pedra alguém parou para olhar o mar o mar não parou para ser olhado foi mar para tudo que é lado— Paulo Leminski
Não vejo muita diferença de quando ouvi Bastião declamar
tudo que o homem estudou para a natureza foi pouco que ele não faz um coqueiro se inventar fica louco caçando a encanação que leva a água do chão pra botar dentro do coco— Leonardo Bastião
Minha maior admiração é a despretensão de suas palavras (“Pra fazer verso não carece de estudo, não. […] Eu não vivo de cantoria”), a mesma despretensão que vejo em Leminski (“fazia poesia / e a maioria saía / tal a poesia que fazia” …).
Da inspiração, diz que pode surgir de qualquer coisa que Deus tenha feito. Qualquer elemento da natureza dá um poema:
Ninguém é poeta, não. Eu posso fazer uma coisa e tudo mundo se agradar, mas eu estou pegando carona no que Deus fez. […] Eu pego carona. Eu pego carona num passarinho quando voa por aqui. — Leonardo Bastião
Para mim, Leonardo Bastião joga as frases despretensiosamente como se jogasse sementes na terra, esperando que germinem. Se não germinarem, “se errar, tanto faz”. Eis sua beleza e sua magnitude.
Que alegria poder assistir a um documentário brasileiro e independente sobre poesia. Ainda mais em tempos como este, que há tanta violência contra o cinema brasileiro [1] [2] [3] e tantos outros.
Contrariando o senso comum, de que o cinema brasileiro não produz obras de qualidade, o diretor Jefferson Souza ganhou alguns prêmios nacionais e internacionais:
Uma curiosidade sobre o curta é que boa partes dos vídeos foram gravados pelo pai do diretor, Bernardo Ferreira, que mantém um canal no YouTube com inúmeros poemas recitados por Leonardo Bastião, além de inúmeras expressões artísticas de outros artistas da região.
Assistam.
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