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Me senti em casa com Caduceu, de Felipe Turner

Publicado em 04 de Setembro de 2020 por

Em 2019 fui à minha primeira FLIP. Vaguei meio perdido pelas ruas de Parati à procura de coisas que me chamassem a atenção, sem preocupação com a programação. Conheci, assim, várias pessoas e tive conversas muito interessantes. Numa das casas, com várias estandes de editoras independentes, encontrei o poeta Felipe Turner , que me mostrou seu livro, Caduceu .

Conversamos um pouco. No outro dia, acabei aparecendo em uma mesa que ele participaria. Comprei os seus dois livros. Li primeiro o que mais me chamou a atenção, Caduceu. Mas antes de falar do livro, preciso expor um breve preâmbulo sobre minha infância.

Breve preâmbulo sobre minha infância

Eu acho que posso dizer que minha criação foi bem ecumênica. Minha mãe já fazia aulas Yoga antes mesmo de eu nascer. Inclusive, a professora é minha madrinha. Conta minha mãe que numa aula, eu, ainda dentro da sua barriga, movimentava as maçanetas com a força do pensamento. Se eu acredito nisso? Bom, não sou o tipo de filho que chama a mãe de mentirosa.

Lembro que, além de um curso de DOS — sim, o sistema operacional —, minha mãe acabou se formando instrutora de Yoga Integral, tendo participado da associação gaúcha e sido juíza em campeonatos. Sim, existem (ou pelo menos existiram) campeonatos de Yoga, com categorias envolvendo critérios técnicos e artísticos.

Durante a juventude frequentei cursos da Igreja Católica, encontro de jovens, e catequese. Sempre fui curioso. Quando perguntei pro meu pai o que era “crisma”, ele me disse “é a confirmação do cristianismo, uma confirmação do batismo”. Nunca mais voltei a frequentar a igreja.

Durante os almoços eram comuns as discussões filosóficas. Meus questionamentos e minha crise existencial começaram cedo. Quando, pelos 14 anos, li O mundo de Sofia , tudo descambou.

Meu pai sempre falava sobre o lado científico da ufologia, sobre as ideias do Trigueirinho, das relações, da simbologia, dos Atlantis, dos deuses astronautas; e minha mãe sempre sonhava com revelações e premonições, via OVNIs no céu, conversava telepaticamente com eles.

Numa Páscoa, eu e ela, junto de um grupo que fretou um ônibus inteiro, fomos até o Santuário do Padre Pio no Uruguai. Fizemos uma meditação em volta de uma fogueira em meio ao nada — 360 graus de pampa, na sua melhor definição — sob um céu onde se podia enxergar a via láctea. Eu não sei o que vi, mas vi algo que não sei, mas vi.

Estátuas e quadros permeam até hoje a casa e o espaço holístico da minha mãe, onde ela administrou uma lista enorme de terapias e cursos. Hoje ela tem focado em Danças Circulares e Círculo de Mulheres.

Pelas paredes, em quadros, e pelos móveis, em estátuas, Jesus, Arcanjo Miguel, Kuan-yin, Avalokiteshvara, Buda, Ganesha, Longhe — o dragão chinês —, deuses hindús, mago Merlim, Mestres Ascencionados, Fraternidade Branca, e uma capelinha de madeira com a imagem de Nossa Senhora, da igreja que ficava na nossa rua, que pernoitava um ou dois dias, fazendo rodízio com os outros vizinhos.

Lembro de um Natal que, por preguiça de montar todo o presépio, minha mãe botou, simbolicamente, várias das estátuas debaixo de um pinheirinho. Logo que vi, já pensei, “bem nossa cara mesmo”.

A primeira série de livros que li foi a do Violetas na Janela . Uma avó era mais espírita e lia muito esse tipo de romance; a outra, apesar de católica, me levava na umbanda para tomar passe e fazer cirurgias espaciais, sem cortes. Também fui tratado com medicina natural e homeopática.

Quanto ao meu pai, além de querer há anos alguns museus de ufologia pelo Brasil, o associo com o livro O despertar dos Mágicos , o tendo como Tim Maia tem o “Universo em desencanto” (apesar de um ser ficção e eu não ter lido nenhum dos dois — ainda). Há um tempo atrás foram inúmeros dos nossos livros doados para a biblioteca pública da cidade, e mais alguns vendidos ou trocados em sebo. Não deixei meu pai se desfazer dele, pois tenho um vínculo ainda desconhecido. Vou lê-lo (não sei quando) para entender melhor o que ele significa pra mim, mas não por agora.

Sobre Caduceu, de Felipe Turner

Antes de falar do conteúdo, é importante destacar o projeto gráfico. O design foi ousado, mas condiz integralmente com a proposta. Fiquei espantado — no bom sentido! — pela qualidade do material. A produção, com certeza, não foi barata.

Capa do livro Caduceu Capa do livro Caduceu

A capa é “praticamente dura” e toda os componentes gráficos estão em dourado — capa, lombada e contracapa! A guarda e a folha de guarda são de um papel mais grosso, tipo cartolina, bem como a última folha.

O livro é todo colorido desde a folha de rosto, e todo poema possui um desenho também de autoria do Felipe Turner, de maneira que, aberto em qualquer um deles, sempre haverá uma ilustração na página da esquerda (par) e o poema na página da direita (ímpar). Assim, a relação que o objeto livro suscita é de que estamos entrando em contato com um livro antigo, medievalesco, daqueles transcritos e copiados por monges à la O nome da rosa .

Na capa, um caduceu composto de elementos místicos. A ponta do bastão, geralmente representada com uma esfera massissa, no Caduceu de Felipe, passa uma ideia de bola de cristal. No reflexo da esfera, um detalhe singelo: vê-se uma lua crescente. Onde deveríamos enxergar asas há motivos que lembram egípcios ou indígenas, dependendo do olhar. As cobras se entrelaçam formando cadeias de DNA — seria a manipulação genética a alquimia do nosso tempo?

No caduceu “original”, elas se olham, fixas, porém na versão do poeta, os olhares são opostos. Não encontrei uma possível explicação para isso nem para o fato de estarem com a língua para fora. Já sobre uma ser contornada e a outra ser preenchida, provavelmente, seja uma referência ao yin-yang.

Miolo do livro Caduceu Miolo do livro Caduceu

Dito isso, podemos concluir: quanta referência! Isso que nem chegamos ao conteúdo. Os poemas são organizados em versos e estrofes curtos, quadras, em maioria. Não encontrei nenhuma relação com métrica. Alias, ao ler, senti que há tanta informação que o verso “passa o fôlego”. Ou seja, a leitura é fluida até certo ponto, porém palavras grandes demais dão essa sensação de “sobra”.

Isso poderia ser um problema acaso não corroborasse com essa imensidão de referências e imagens de diferentes culturas. Os temas se misturam, se mesclam, trazendo várias referências e imagens. Veja só esse trecho do poema “Arcanos da Floresta”:

Entre jagubes e flores diversas
aportam os deuses Arcanos da Floresta
Yagé concentrando na ponta do bastão
a força e magias do Rei Salomão


O jagube é uma planta sagrada, relacionada ao xamanismo. É o cipó utilizado com outras plantas, para produzir a Ayahuasca. Segundo o dicionário Oxford, arcano é um adjetivo que quer dizer “profundamente secreto”; mas complementa que, em se falando de religião, significa “segredo que os cristãos dos primeiros séculos mantinham sobre alguns mistérios da religião, esp. da eucaristia”; já o verbete referente à alquimia diz: “um dos supostos grandes segredos da natureza, que os alquimistas procuravam desvendar.” Além do mais, Arcanos também lembra o tarô.

Yagé é outro nome para a Ayahuasca; e o Rei Salomão, que teria escrito os livros Provérbios e Eclesiastes da Bíblia, é tido como um dos mais sábios. O templo que ele construiu guardava a Arca da Aliança, que, por sua vez, guardava, entre outras cosias, a tábua dos dez mandamentos e a vara da Aarão, o profeta irmão de Moisés. Essa vara teria sido utilizada pra mostrar ao Faraó egípcio suas capacidades místicas.

A técnica usada nos versos, no que se refere ao ritmo, me aproximou do místico — o arcano — de uma gama imensa de culturas, apesar das “sobras”. São versos que, quando ditos em voz alta, trazem uma atmosfera de conjuro. Do ponto de vista das imagens, elas perpassam tantas culturas e referências, que formam um mosaico de rituais.

Ademais, para quem teve a infância como a que descrevi no preâmbulo deste artigo, ler o livro foi uma experiência de comunhão ecumênica, um certo retorno, um espelho que não mostrava um eu, mas mesmo assim houve identificação. Foi muito próximo ao que senti assistindo “Híbridos, os espíritos do Brasil” (assista o trailer e já vai ter uma ideia do que estou falando), do diretor francês Vicent Moon. Em suma, algo parecido com “estar em casa”.

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