Cosmologia da Linguagem

Sinto os bilhões e bilhões de anos do universo na aspereza decrépita e irregular das cascas das árvores e no fulgor branco sobre o verde das primeiras folhas

Vejo a evolução caótica e imprevisível do amanhã nos sons translúcidos oriundos do encontro das águas que correm por entre as montanhas gélidas de sabe-se-lá-onde

Escuto às vibrações do crepitar da fogueira que celebra o amarelo-laranja do contínuo nascer e pôr do sol do ínfimo tempo da vida de cada coisa e do infinito tempo de vida de todas as coisas que morrem e revivem e estão em eterna mutação

Saboreio a tenra complexidade icástica da fragrância orgânica que vaga no espaço cósmico do gole quente do chá servido em cuia meticulosamente talhada à mão

Inalo o cheiro dos festivos espíritos, velhos e novos, pintados com tintura escura de urucum escondendo o desconhecimento da linguagem da própria linguagem em clareira aberta na mata fechada

Não sou parte do universo, sou o próprio universo que experiencia a si em fruto desabrochado da água

Partícula que viajou no interior rochoso de um flamejante cometa e que, à luz da evolução, chega à consciência e se firma tomando da linguagem o que dela pode.

Mais poesias